NA FEIRA E NA ESCOLA, APRENDIZAGENS
DE NEGRITUDE
Ariane Celestino Meireles[1]
Fui
para a escola pela primeira vez aos sete anos de idade. Para estudar, né?
Porque já havia ido outras vezes para acompanhar minha mãe, dona Adélia ou meu
pai, seu Otávio, nas reuniões de família que havia nas escolas em que minhas
irmãs e meus irmãos estudavam. Eu era uma das mais novas da família. Eu e meu
irmão de 5 anos. Eu tinha 4 irmãos e 4 irmãs. Faça aí as contas para saber
quantos éramos na minha casa.
Isso
mesmo: éramos 9. Gente à beça numa só
família. O nome das mulheres: Ruth, Nérias, Lídia, Ana Lúcia e eu, Ariane. Dos
homens: Samuel, Joel, Josué e Marcos.
Eu
era uma das mais novas da casa. Tinha muita vontade de ir para a escola
aprender as coisas, principalmente ler e escrever. Sobre isso falo daqui a
pouco, porque agora vou falar de uma outra coisa que aprendi com minha mãe,
dona Adélia, quando era bem pequena e a acompanhava todas as semanas para as
compras na feira de São Torquato, o bairro onde eu morava na periferia de Vila
Velha, no Espírito Santo (aproveite para dar uma olhadinha no mapa do Brasil
para ver onde fica o Espírito Santo!). Então, no caminho da feira, minha mãe
sempre me dizia: “filha, preste atenção.
Nós devemos comprar nas bancas das mulheres, sabe por que? Porque nós mulheres
precisamos de independência. Independência é ser livre. Quando temos nosso
próprio dinheiro, que ganhamos com nosso trabalho, então podemos ser
independentes. É muito importante que as mulheres sejam independentes”.
Eu
achava aquilo legal e aprendi a comprar laranjas, bananas, melancias, coentro,
alface, peixe e flores nas bancas das mulheres. Ela ainda me dizia: “procure as bancas das mulheres negras mais
velhas, depois as das mulheres mais jovens. As mais velhas sempre devem ter
prioridade, porque são as que precisam de apoio na velhice. Se elas têm
dinheiro nas mãos, terão mais possibilidade de viver melhor. As jovens têm mais
chances e oportunidades”.
Assim,
entre as conversas no caminho da feira com minha mãe, aprendi um monte de
coisas que passei a compreender melhor ainda quando cresci. Esta parte de
quando cresci, conto depois. Agora vou voltar lá para a escola, quando fui
estudar aos sete anos de idade. Me acompanha?
Quando
cheguei para estudar na escola, minhas irmãs e meus irmãos mais velhos já
haviam me ensinado a ler e escrever um pouquinho. Eu pensava que seria muito
legal chegar à escola já sabendo um pouco do que a professora iria ensinar.
Pensava até que seria fácil para eu aprender o resto. Aí me enganei e vou te
dizer por que.
Eu
era uma garotinha muito tímida, tinha vergonha das pessoas e ficava bem
quietinha durante a aula toda. Às vezes dava vontade de ir ao banheiro fazer
xixi, mas eu tinha vergonha de pedir à professora e então eu fazia ali mesmo,
sentada na “carteira”[2]. Nenhuma
vez a professora chegou perto de mim para perguntar se eu estava bem, se queria
ir ao banheiro, não perguntava nada! Os moleques riam de mim e eu tinha
vergonha de sair para o recreio toda molhada. Ficava ali na sala, sentada, às vezes
sem merendar.
Eu
percebia que a professora era mais atenciosa com outras meninas e meninos. Ela
até passava a mão nos cabelos delas, mas eu nunca experimentei esta sensação
vinda desta professora. Será que ela pensava que meu cabelo espeta? Acho que as
minhas professoras ainda não haviam conhecido a delícia que é passar a mão num
cabelo crespo, ou pixaim ou “de pico”, como dizemos no Espírito Santo. Tem umas
molinhas tão gostosas de afagar... mas elas não sabiam. Acho que eu também não.
Aprendi depois como nosso cabelo é maneiro e agora eu vivo passando a mão nos
meus cabelos, que uso Black Power às vezes, e também nos cabelos das meninas e
meninos que se tornaram minhas alunas e alunos. Êpa!! Já falei que sou
professora... isso era pra depois.
Mas
vamos voltar lá na história da minha timidez quando criança de sete anos: teve
um dia que eu estava bem, bem sequinha (neste dia deu vontade de ir ao banheiro
antes da professora entrar na sala!) e com vontade de me sentir mais livre,
como dizia minha mãe sobre as mulheres. A professora havia saído da sala e as
crianças estavam fazendo uma bagunça danada. Gritavam, atiravam bolinhas de
papel, corriam pela sala... uma deliciosa bagunça mesmo! Eu decidi sair da
minha carteira e me sentei na janela da sala para ver a bagunça da criançada.
Fiquei sentada de costas para o corredor e não vi quando a diretora passou por
trás de mim. As crianças perceberam a aproximação da dona Zélia e sentaram-se
rapidinho. Eu nem tive tempo de correr para a minha carteira, quando a dona
Zélia chegou na porta e gritou: “Eu sabia
que esta bagunça tinha que ser desta macaca! Olha só onde ela está
pendurada!!!”.
Morri
de vergonha, a meninada começou a rir de mim e eu me senti muito mal. Dona
Zélia não podia ter feito aquilo, ela sabia que eu era quietinha e que não
estava fazendo aquela bagunça toda sozinha, mas ela decidiu colocar para fora
todo o racismo dela e me ofendeu muito. Lembro que, quanto mais as crianças
riam de mim, mais ainda ela falava de pessoas negras chamando vários nomes ofensivos.
Foi tenso!
Naquela
época, estava passando no cinema o filme King Kong, a história de um gorila
gigante. Meus colegas começaram a me chamar de King Kong e minha vida virou um
tormento na escola.
Vou
falar de três coisas que aconteceram comigo, a partir deste episódio:
- Quis embranquecer[3]. Eu
via que minhas colegas brancas ou mais claras do que eu não eram
humilhadas na escola. As professoras gostavam mais delas. Queria alisar
meu cabelo, me esfregava no banho com bucha para ver se saía a “tinta[4]” da
minha pele e muitas outras coisas.
- Quase fiquei reprovada[5].
Tinha tanta vergonha que ficava sem prestar atenção nas aulas e nem
conseguia estudar em casa.
- Queria sair da escola[6].
Minha mãe, muito cuidadosa comigo, não permitiu que eu saísse. Me obrigava
a ir à escola mesmo quando eu não queria ir.
Minha
mãe passou a perceber que eu estava diferente, muito mais quieta que antes, não
queria nem brincar de queimada na rua com minhas colegas. Ela me perguntou o
que havia acontecido e um dia eu falei. Ela foi lá na escola e conversou bem
duro com a dona Zélia, a diretora. Disse que exigia que ela me respeitasse e
disse que o que ela havia feito comigo era uma expressão de racismo.
Se
fosse nos dias de hoje, acho que a dona Zélia seria até presa, porque agora há
leis que criminalizam o racismo. As pessoas vão presas porque têm atitudes
racistas, quando há denúncias. Naquele período, isso ainda não era comum. A
dona Zélia ouviu a dona Adélia e nunca mais sofri preconceitos daquela
diretora. Ela também aprendeu com a minha sábia mãe.
Mas...
Na
minha escola, onde estudei até a oitava série[7], tive
apenas uma professora, que era negra como eu e que me tratava bem. Se chama
Conceição e dava aulas de educação física (agora ela está aposentada). Era
carinhosa comigo, tocava nos meus cabelos e me convidava a fazer parte dos
grupos de dança da escola. Ela tinha o cabelo “de pico”, como o meu. Usava bem
alto e era lindo de ver. Ela dizia que eu dançava muito bem e me levantava
sempre o astral. Imagine só: passei oito anos da minha vida nesta escola e
apenas a professora Conceição me tratou com carinho e igualdade com as outras
meninas! Ainda bem que havia ela ali...
Nesta
escola eu também passei a observar que os livros que estudávamos, os cartazes,
os filmes que víamos, quase tudo trazia imagens muito negativas de pessoas
negras. Nunca apareciam meninas negras bem vestidas e penteadas, nem meninos
negros de forma positiva. As mulheres negras sempre estavam ilustradas fazendo
serviços domésticos para famílias brancas e elas nunca apareciam com suas
famílias. Os homens negros, quando apareciam, sempre estavam no lugar de
escravizados ou como marginais. Assim, eu percebi que as coisas que a diretora
parou de falar por intervenção da minha mãe, eram todo o tempo “faladas” de
outra forma na escola.
A
escola reproduzia o racismo pelos cartazes, livros, filmes, piadas de ofensa,
silêncios.
No
entanto, na minha casa o racismo era superado com as palavras e atitudes de
minha mãe e meu pai, junto com minhas irmãs e irmãos, que diziam que eu era
inteligente, estudiosa, bonita, forte, esperta e que sabia coisas que
geralmente as meninas não sabiam, como as aprendizagens do feminismo nas idas à
feira de São Torquato.
Mais
tarde, já com meus quinze anos de idade, conheci o movimento negro da Cidade de
Vitória. Conheci a Edileuza Souza, a Lígia Rosa, a Márcia, a Míriam Cardoso, a
Leomar Vazzoler, o Cleber Maciel, o Luiz Carlos e muitas outras pessoas que me
mostraram quem eu era, de onde vim e para onde poderia ir se quisesse. Me
ensinaram com muito afeto que nós negras e negros temos uma linda história de
ancestralidade, que somos fortes, inteligentes, sábias, que temos axé, que
temos muitos motivos, inúmeros mesmo, para termos orgulho de sermos quem somos.
Me falaram de Zumbi dos Palmares, de Lélia Gonzales, de Angela Davis, de Malcom
X, de Nelson Mandela, de Dandara e Carolina Maria de Jesus. Me falaram de
muitas outras gentes pretas como eu, que fizeram de suas vidas nossa história.
Aprendi
tudo.
Aprendi
a dançar e escolhi a Dança Afro Brasileira. Conheci a professora Mercedes
Baptista[8] e o
professor Raymundo Netto[9], que
ensinaram as artes da dança afro para mim e eu passei a ensinar para muitas
pessoas. Conheci o Ilê Aiyê e aprendi muito com as danças e cantos da Bahia. Me
tornei profissional nesta área e ajudei a construir muitos grupos na cidade de
Vitória, além de viajar por alguns lugares do mundo mostrando o orgulho da
nossa negritude brasileira. Aprendi também a respeitar e amar as religiões
afro-brasileiras a partir da dança afro.
Escolhi
ser professora. Adivinha de que? De educação física. Sabia que eu poderia fazer
com muitas meninas e meninos negros o que a professora Conceição fez comigo: me
ensinou a amar a escola e a fazer deste lugar um espaço para aprender e ensinar
o respeito, a dignidade, o prazer de estudar. Passei a ser professora também de
gente grande e dou aulas em faculdades, ensinando e aprendendo também com as
pessoas adultas. Também estudei muito, e continuo estudando. Fiz mestrado em
educação e um outro na área de política social.
Aprendi
a olhar as rugas das mulheres mais velhas como expressão de sabedoria,
autonomia e força; aprendi a perceber nas mulheres mais jovens a energia para
mudar o mundo; aprendi com as meninas e meninos que cada sorriso vale a pena.
Aprendi
a aprender com leituras, com desenhos, com sorrisos, com lágrimas (quase sempre
de felicidade), com cheiros de moqueca, de coentro, de mexirica, de flores, de
pimenta.
Aprendi
a escrever e dou de presente tudo que aprendi nesta história, para que você construa
a sua história.
Do
seu jeito.
Com
sua vivência.
Com
sua vontade de dar a volta por cima, enfrentar o racismo e contar para outras
meninas e outros meninos a delícia de ter orgulho de ser negra e de ser negro.
Te
convido!! Vamos lá!
[1]
Professora da rede municipal de ensino de Vitória (ES); professora
universitária; mestre em educação e política social; escritora de literatura
infantil; possui publicações nas áreas de educação etnicorracial e direitos
humanos para LGBT; integra a Santa Sapataria – coletivo de Lésbicas e
Bissexuais do Espírito Santo; palestrante e oficineira nas áreas mencionadas;
professora de dança afro-brasileira; umbandista; uma mulher feliz.
[2] Carteira
era o nome que damos aqui no Espírito Santo ao conjunto de móvel em que as(os) estudantes
sentam, composto por uma mesa e uma cadeira. Na época que eu tinha sete anos, em
1973, estas carteiras eram bancos de madeira com mesa, com lugar para duas
pessoas. Ainda existem desses móveis em algumas escolas do Brasil.
[3] Ver: SILVA, Ana Célia da. "Ideologia
do embranquecimento". In: As idéias racistas, os negros e a educação.
Florianópolis: Núcleo de Estudos Negros - NEN, 1997. (Série O pensamento negro
na educação, 1).
[4] Sobre
isso, pesquise sobre a melanina (substância que dá cor à pele) e leia SANTOS, Nilma
Lino: “Sem perder a raiz”: corpo e cabelo como símbolos da identidade negra.
Belo Horizonte: Autêntica, 2006.
[5] Naquela
época, havia reprovação na primeira série (ou primeiro ano). Ver estudos que
relacionam rendimento escolar e racismo.
[6]
Idem sobre evasão escolar e racismo.
[7]
Hoje em dia corresponde ao 9º ano.
[8] Mercedes
Babtista é a precursora da dança afro-brasileira no país, reconhecida em âmbito
internacional. Criou metodologia do ensino da dança afro e se tornou a primeira
bailarina negra a fazer parte do balé municipal do Rio de Janeiro. Em 2011
completou 90 anos e vive no Rio de Janeiro. Sobre sua vida, leia MELGAÇO, Paulo
Jr. “Mercedes Batista, A criação da Identidade Negra na Dança”. Rio de Janeiro,
Fundação Cultural Palmares, 2007. Disponível no endereço http://afro-latinos.palmares.gov.br/sites/000/2/publicacoes/mercedesbaptista.pdf
[9]
Assistente de Mercedes Baptista que difundiu a dança afro-brasileira na cidade
de Vitória, fundando o grupo Axé de Obá em 1983. Faleceu no início dos anos
1990 na cidade do Rio de Janeiro.
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